domingo, 12 de novembro de 2017

ayahuasca

















noite passada tive um sonho
xamânico
o outro disse-me
           “toma
             hás de ficar curada
nunca desviar o caminho
próprio
absorver jàmais o veneno
alheio
ouvir a ira das escolhas
erradas
          a pasta amarela contém encantamento
           há de envolver  tuas  angústias internas”  

e a mão estendia-me a poção mágica
a pasta ocre raiz moída
o índígena que te habita adentrando a madrugada
o quarto a casa a invisível doença
talvez em minha alma
o xamã que és apareceu do nada
acordei curada


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                                                                                        - Graça Carpes

terça-feira, 7 de novembro de 2017

duplo sentir













andam os pássaros  e
os 
helicópteros
em voos oblíquos
sobre o
mar
navegar  o espelho
das águas
voar
talvez
voar


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                                  - Graça Carpes

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

alma de poesia



















fugir da materialização
das
coisas

sou quântica
e
o amor
nuvem

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                                        - Graça Carpes

terça-feira, 3 de outubro de 2017

afirmação



todo ar é pulsação
todo chão
tambor

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                   - Graça Carpes





terça-feira, 19 de setembro de 2017

direções opostas




















quando começamos  o encontro – encanto dos começos
         ainda que tremulante o medo ainda que atuante a ânsia
corria tua esverdeada pupila
                           feito fio
energia que chegava até um ponto certeiro ao centro
de mim
depois
comemos as águas os parques igrejas calçadas paredes estrelas
escuras vielas as sombras as ondas as amanhecidas esquinas os
hot-dogs  as avenidas e
suposto que nada mais restava
seguimos
       estradas

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                                                                                        - Graça Carpes

domingo, 10 de setembro de 2017

plexo





















transpor é

preciso

 sentir mais forte

 o

 riso
     
       que

 os
     
        silêncios


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                         - Graça Carpes
 

domingo, 13 de agosto de 2017

ao sul da existência


Camisa, cinto, sapatos, meias, chaveiro, carteira e almoço especial. Lembro-me bem. Mesmo depois que crescemos, retornavamos   com casacos, pijamas, loção de barba e ... almoço especial - nossa mãe o preparava, ainda que o convívio deles estivesse um inferno. Quando criança havia, também, cachorro, flores, bola, bicicleta... Embrulhados em papel especial, pijamas, cinto, camisa, sapatos, meias, luvas, cachecol... e almoço especial. Era sagrado. Mais tarde, depois de eu já ser mãe, soube um dia que ele havia saído  de casa para não mais retornar: construíra um outro lar. Eu retornava, mas era um vazio tão grande dentro da minha mãe... eu levava camisa, cachecol envolvidos por um papel especial. Mas não havia almoço especial, não o de minha mãe. Ficava tudo um faz de conta - não o pai, mas o estar  naquele outro lugar. Faltava uma metade, haviam subtraído uma metade - e mais que isso, subtraíram o  que preenchera o espaço que agora se tornara um vazio dentro de minha mãe. E naquele outro novo lar  sobrava a metade que chegava embutida  em mim. Nada se ajustava. Em mim dois vazios: o antes e o depois. E ele sem compreender  que não há substituições -  pessoas são únicas! Mas insistia e insistia...  Hoje nada mais existe. Não há pijamas,  camisas, luvas, chinelos e nem o vazio daquele incômodo do faz de conta - a mãe partiu primeiro e ele, o pai, um bom tempo depois. E a gente que cresceu, ficou solto feito folha de árvore em  redemoínho na cantoneira de esquina, rodopiando rasteiro sobre o colorido papel de presentes que nos embrulha a memória. No mês  de agosto é sempre assim,  o vento sopra forte ao sul da existência.

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            - Graça Carpes -